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sábado, 11 de agosto de 2012

Este é o futebol olímpico, o FEMININO


 O palco sagrado do futebol mundial, o exuberante Wembley, foi agraciado com uma grande apresentação na partida final do futebol feminino entre Japão e EUA. Sem duvidas a melhor partida da competição, com atributos pré, durante, pós partida que enriqueceram ainda mais o espetáculo que é a competição feminina na modalidade futebol, a única a tratar os Jogos Olímpicos com o seu devido valor.

Antes da partida, havia um clima muito interessante por parte das americanas. Sedentas por vitória e ainda ressentidas pela derrota amarga e até certo ponto injusta no Mundial de seleções no ano passado, as mulheres americanas tinham acrescentadas a sua mentalidade americana-vencedora, o desejo incontrolável e até rancoroso de revanche contra as Japonesas. Isso ficava claro nas Twitadas durante a competição e principalmente na entrevista da meio campista Carli Lloyd (Ah Lloyd!) anterior ao jogo, demonstrando que seria uma final que o nível motivacional americano estaria nas alturas.

Do lado das Japonesas, havia uma valorização justa por parte da mídia que “cobre” o evento olímpico, destacando o real mérito e capacidade de vencer a seleção brasileira nas quartas de finais e o excelente selecionado francês nas semi, valorizando o poder de superação diante das dificuldades dos adversários em questão, como também do contexto desfavorável durante a partida, principalmente nas semifinais, que teve como protagonista a goleira Fukumoto defendendo a cobrança de pênalti francesa em um momento critico do jogo.

Diante desse cenário, tivemos um começo de jogo um pouco nervoso por parte das japonesas, e em contrapartida, um início promissor e que demonstrava a total concentração e empenho do lado americano. Os EUA, logo de início, tiveram uma postura firme e viril, marcando a saída de bola japonesa, não deixando espaços para troca de passes no meio campo, e anulando por completo o ataque japonês, que nas poucas intervenções ofensivas, se perdia na transição defesa-ataque, e não conseguia chegar com condições reais para colocar em perigo a meta da musa Hope Solo.

Tendo consigo a capacidade tática que as fazia gigantes dentro das suas limitações, as americanas tiveram como grande trunfo a organização que demonstraram no momento de retomada da posse de bola. Como não existia muito espaço para as japonesas no meio campo, era ali que a posse era retomada e diante do espaço (relativamente grande) entre defesa-meio campo japonês, havia sempre a oportunidade de um avanço com condução das meio campistas juntamente com um passe em profundidade para a inteligente e habilidosa atacante Morgan, que durante a partida sempre se mostrou como a válvula de escape dos EUA.

Em ação semelhante à descrita anteriormente, os EUA chegaram ao seu primeiro gol com uma investida pelo lado esquerdo com a jogadora Tobin Heath. Na primeira trave, estava Alexis Morgan que com grande competência pode fazer o domínio. Após o cruzamento, dentro da pequena área estava Wambach, que foi impedida de fazer o seu 10º gol em Olimpíadas graças a esperteza e rapidez de Lloyd, chegando para completar de cabeça.

A proposta americana havia funcionado: conseguir ditar um ritmo de marcação que desestabilizasse a eficiência tática japonesa, o que pôde ser percebido até antes do gol quando houve uma jogada em que a mesma Morgan conseguiu desarmar a zagueira japonesa em frente de sua área, que só não teve um desfecho melhor para os EUA, por conta da intervenção da excelente goleira japonesa. E com isso, as americanas abriram o placar ainda no primeiro tempo, aproveitando ataques com poucos passes, movimentações velozes por parte das atacantes e conclusões efetuadas logo que houvesse a menor oportunidade.

O nervosismo de estar em uma final e a forte marcação pressing americana acarretou em um número considerável de passes errados e o mais grave ainda, a posição da perda de pose da bola sempre colocava em risco a meta japonesa. Mesmo assim, as japonesas não abdicaram de seu estilo de jogo. Como foi bom ver um time (seja ele masculino ou feminino) ter a paciência de tocar a bola com qualidade, sempre buscando a saída de jogo começando logo com as duas zagueiras, distribuindo as jogadas com as laterais, tendo também como opção as meio campistas que aproximavam para buscar a bola, com um comportamento tático muito bem definido, pois sempre que tinha a posse da bola, tentavam as investidas avançando sempre pelas laterais, principalmente pela direita, com a capitã Aya Miyama.

E com esse comportamento muito bem definido, entendido e treinado por parte do Japão (algo que não é do dia para noite que se consegue, muito menos espontaneamente e sem intervenção competente da comissão técnica), após o gol sofrido foram criadas inúmeras chances de gol. Neste momento da partida, quem se destacava era a atacante Ohno, detentora de uma técnica invejável a qualquer marmanjo, a pequena abusava dos dribles e fintas nas duas extremidades do campo, buscava triangulações com Sawa quando se defrontavam com o forte muro americano postado em frente da grande área.

Aos 16 minutos uma grande chance japonesa, a partir de troca de passes em frente da grande área americana, Sawa achou Kawasumi que parou nos pés da zagueira americana encima da linha da meta, e após o rebote, nas mãos de Hope Solo.  Logo em seguida, aos 17, em um cruzamento da esquerda (que foi originado de troca de passes conscientes) Ogimi cabeceia na trave, não conseguindo no rebote fazer o merecido gol japonês.

Ah, trave, sempre inimiga dos gols merecidos. Foi ela também que impediu aos 32 o gol japonês. Foi ali que vimos a grande habilidade de Ohno, diante de 6 americanas postadas à 3 metros do gol de Hope Solo, nenhuma foi capaz de desarmar a baixinha, que teve a inteligência de ver a capitã Miyama entrando como elemento surpresa na entrada da área, de pé esquerdo, com a força necessária e devidamente escolhida por jogadore(a)s com grande talento, infelizmente conseguiu acertar o travessão americano. Que sufoco.

Até o final do primeiro tempo, tivemos a seleção japonesa tentando, de sua peculiar maneira, com passes, paciência e comportamento tático bem definido, o gol de empate. A maioria das jogadas começavam com o recuo para buscar a bola da meio campista Sakaguchi, que alias tinha estilo muito elegante, jogando de cabeça erguida, dominando os balões americanos no primeiro contato com a bola, colada aos pés. Ela utilizava sempre das arrancadas das laterais e das meio campistas que se movimentavam em todas as partes do campo de ataque. Neste momento, o muro americano foi muito eficiente, não tão somente por desarmar e tirar o perigo, até porque em muitas jogadas proporcionou espaço que não foi devidamente aproveitado pelas japonesas, mas principalmente por quebrar e trocar de maneira inteligente o ritmo de jogo. De minuto a minuto, conseguia esfriar progressivamente os ataques japoneses, até ao apito final da arbitra alemã.

Falando em arbitragem, o ponto fraco deste primeiro tempo esteve sempre no comportamento do trio alemão. Tiveram uma atuação irregular, insegura e que por várias vezes prejudicou a seleção japonesa. Em um dos equívocos, após uma cobrança de falta de Miyama, claramente a jogadora americana interviu intencionalmente e providencialmente com o braço a trajetória da bola dentro da grande área. No replay, além de mostrar com exatidão a infração, pôde ser observado a colocação que SIM, dava condições de visualização da falta por parte da arbitra alemã.

Voltando do intervalo, o panorama da partida não mudou muito. As japonesas atacavam e os EUA sabiam exatamente o que fazer quando retomavam a bola. E em um contra-ataque aos 53 min, outra vez LLOYD (que vingança!) marcou para os EUA. Em uma jogada que se sucedeu algumas vezes durante a partida, com desarme no meio campo, espaço entre a defesa e meio campo japonês, condução veloz por parte das americanas e a falta de uma marcação mais efetiva e até brusca das japonesas, Lloyd trouxe a bola passando como uma flecha entre as japonesas, chegando à entrada da grande área, batendo em diagonal no canto direito da goleira japonesa. Estava completada a vingança americana, estava?

Aos 63 minutos, o Japão chegou ao seu merecido gol, em uma troca de passes no campo de ataque, com presença maciça de suas jogadoras, Miyama deu um passe em profundidade para a atacante (não me recordo o nome), que em um só passe, encontrou Sawa na marca do pênalti, a bola chorou para não entrar, e só foi chegou às redes no rebote de Ogimi. Um belo gol mostrando entrosamento das japonesas. Para um observador distraído, o gol só saiu de um bate rebate na área americana, mas a origem do gol japonês é que encanta. Ohno como sempre na partida, chegava na esquerda e driblava um grupo de americanas. Enquanto isso, um movimento sincronizado e ritmado por parte da lateral direita acontecia (ou no caso a meio campista Miyama que estava por ali), e com um espaço grandíssimo e criado por méritos japoneses e não por deficiência dos EUA, a jogadora recebia a bola em uma inversão de jogo (que foi característica marcante do Japão, e não uma jogada isolada). Com a posse da bola, tinha tempo para decidir de efetuar um passe em profundidade para a atacante (ou ponta) que entrava na área como um raio. Fantástico.

O lance dramático do jogo aconteceu por volta dos 80 min, onde a recém promovida ao time Tanaka conseguiu, após um erro da defesa sólida americana, retomar a bola em frente à grande área, com uma opção de passe para Sawa do lado direito. Como todo grande jogador que têm uma oportunidade dessa magnitude, teve a personalidade de avançar e arriscar o gol, que parou nas mãos de Hope Solo.

Seria o gol de empate. E muitos criticaram a jogadora japonesa pela escolha. Naturalmente, a bola não chegou às redes pela falta de competência em finalizar, onde Hope Solo foi muito ajudada pela altura e força aplicada pela japonesa, chute fraco e meia altura. Porém destaco a competência da jogadora americana, que antecipando um possível passe para Sawa, teve a reação rápida e inteligente de marcar que estava mais próximo (Sawa) e manter distancia segura para não proporcionar uma situação goleiro-atacante. Assim, pode-se diminuir não consideravelmente, mas de forma importante as probabilidades de acerto da japonesa.

Para os que somente viram os melhores momentos ou o placar final da partida, concordariam com a pergunta de alguns parágrafos atrás. Entretanto ao decorrer dos 35 minutos restantes de partida, vimos um time que apesar da derrota eminente e evidente, não deixou em momento algum de acreditar na reviravolta do placar, nunca partindo para o desespero que somente atrapalha nesses momentos difíceis, não utilizando da emoção como substituta da técnica e organização tática, mas sim aliada, que fornece aquele extra de motivação tão importante nessas horas.

O Japão criou inúmeras chances de gol, jogou dentro de suas possibilidades, enfrentou um adversário superior fisicamente, com jogadoras competentes. E tais dificuldades só reforçam os méritos dessa seleção que já entrou para história de seu país e do cenário mundial do esporte.

E tudo isso reforça e intensifica o brilho dessa medalha de prata, que não deve ser lembrada como fracasso, mas sim como uma representação de um time com o verdadeiro espirito olímpico, tão esquecido e desprezado por muitos atletas, que entre outras coisas negociam futuros contratos durante a competição; jornalistas que insistem em não compreender a dificuldade de determinados países de colocar ao menos alguns atletas para participar dos Jogos Olímpicos, e por isso a participação já é um grande resultado; e torcedores (esses não vale a pena nem comentar) nestas olimpíadas.


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