Às vésperas da final do Mundial de clubes da FIFA no Japão, por muitas
vezes já foi retomado o velho e desgastado questionamento da real importância
desta competição, principalmente no que se refere aos times europeus. Acredito
ser um campo fértil de reflexões dos mais diversos pontos de vistas, que em
suma, só cumpriria uma das mais interessantes características do futebol,
aquela que é capaz de reunir pessoas em prol de uma discussão, proporcionando
vivencias e trocas extremamente saudáveis, onde todos ganhariam, sejam por
expor seu ponto de vista, ou mesmo conhecer as ideias alheias e se identificar
(ou não) com elas.
Deixamos os europeus de lado. Se não fazem questão de enfatizar ou “jogar
pra valer” esta competição, isto não tira o mérito das equipes, principalmente
as brasileiras, de conseguir êxito na conquista desse titulo. Porém, apesar o tal
desdém europeu, vejo esta competição da mesma maneira que aqueles que ganham o
torneio sul-americano, principalmente o deste ano, como a Copa do Mundo de
Clubes.
Naturalmente devemos fazer as devidas considerações, tendo em vista o
modelo tradicional e clássico como merecedor de nossas atenções. Aquele mesmo
que vigora quase hegemonicamente há décadas, desde os tempos onde a Fifa não
tinha desenvolvido um meio um tanto eficiente de lucrar com a aglutinação dos
campeões dos diversos continentes.
Assim sendo, o mundial interclubes é valoroso por si só. Primeiramente,
devemos considerar o translado necessário para participar desta competição.
Deixar o seu país em pleno verão, ao fim de uma extenuante temporada, rumo a um
país distante, de cultura diferente, enfrentando temperaturas que chegam a
valores negativos são fatores enriquecedores, principalmente para aqueles que
participam ativamente desse processo, e que conseguem entender que a superação
dos estágios anteriores ao título, mesmo aqueles mais simples, são de
importância equivalente à taça.
Considerando esse primeiro aspecto, não vejo valor algum nestes projetos
pilotos que foram por ventura desenvolvidos em países de clima tropical,
reunindo um número desproporcional de times do país sede, trazendo clubes
europeus de ambientes congelantes do inverno de final de ano, para passar
alguns dias de férias, repousando nos mais luxuosos hotéis, tendo tão somente a
insignificante tarefa de entrar em campo contra sei lá quem.
Falando em times do país sede, também vejo esse aspecto como enriquecedor
do mundial. Se deslocar de sua pátria, para uma missão considerada como
“problemática” e mesmo assim conseguir êxito é sem duvida extremamente
gratificante. A distância da terra natal serve como multiplicador da sensação
de dever cumprido, acrescentando o imensurável sentimento de conseguir vencer
representando as cores nacionais em terras estrangeiras.
Em contraste, conseguir um título considerado internacional, enfrentando uma equipe do mesmo país não é nem de longe tão recompensador como o exemplo citado anteriormente. A quebra de rotina, por estar em um ambiente de certa forma hostil e estranho, forçando a adotar um sentimento/comportamento de coletividade e seriedade só pode ser alcançada fora de seu país. A pátria é confortável de mais, fazendo com que não consigamos realmente sentir o que está se passando a nossa volta, como também o que carregamos em nossos ombros. Em suma, não é a mesma coisa
Outro aspecto interessante está voltado ao ato heroico de enfrentar um
Golias futebolístico. Chegar desacreditado, muitas vezes sendo menosprezado
pela equipe adversária faz com que se fomente um sentimento de revanche, sem
necessariamente ter havido um confronto anterior. O mundial aglutina várias
culturas do futebol, proporcionando não uma amostra de quem realmente é mais
competente, mas sim demonstrando que é possível, através desta circunstancia
específica, derrubar os mais pretensiosos e preconceituosos olhares metidos a
superiores, tão cheios de si, que não percebem a especialidade da ocasião.
Acabam derrotados.
Agora isso não é viável quando não ocorre esse embate. Desqualifica e
desfigura a competição. A estranheza e desconhecimento, aliados algumas vezes à
soberba e indiferença dão os contornos mais belos deste acontecimento. Aos que
não tiveram essa experiência e acabaram “ganhando” - sua conquista é tão
valiosa, que o troféu nem é rotativo, não é objeto de ganancia de ninguém.
Façam bom proveito.
Por essas e outras coisas compreendo e até concordo com a ideia de
colocar de importância superior a essa competição em detrimento da
Libertadores, desde que sejam feitas as devidas ressalvas e considerações. Caso
contrário, caímos na armadilha mortal de desprezar algo que já é alvo das mais
injustas avaliações e valorizar torneios de colônias de férias fora de época,
tendo os participantes escolhidos a esmo, sabe-se por que motivo. Na verdade, sabe-se sim.







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